domingo, 16 de março de 2014

Critica a Viagens de Finalistas - Rebel Village 2013

«Excessos!», dizem eles.

A verdade é que qualquer um que nunca tenha posto os pés numa viagem de finalistas, é influenciado pelo que ouve na televisão: um morto por overdose, outro por cair de um prédio.

Mas como em qualquer outra situação na vida, não há substituto para a experiência.

22:00. O autocarro chegou atrasado a Faro, mas quem já tinha esperado meses e meses, podia bem esperar mais uma hora.

A premissa desta viagem, a que chamaram «Rebel Village», era a de 5 dias em regime de bungalows, tardes na piscina ou na praia, música todo o dia e festas pela madrugada fora com alguns dos melhores DJ's portugueses.

Por um preço total a rondar os 400€, era uma proposta irrecusável.

A viagem até Barcelona foi feita em pouco mais de 9 horas: no entanto havia silêncio, quebrado apenas por uma ou outra conversa.

A ânsia de viver quase que se materializava, para quem se atrevesse a fixar os olhos dos jovens.

«Smells like Teen spirit!», gritou um desconhecido ao sair do autocarro. E com uma troca de olhares maliciosos, eu e os meus companheiros de viagem anuímos.



Estávamos a meio de Março, e em Portugal o sol não aparecia desde o fim do Verão. Mas eis que, como um velho compincha que à muito não vemos, a estrela do dia sorriu para nós assim que pusemos os pés na areia macia de Salou.

A noite cai cedo.

Por todo o campo rebelde começam a ouvir-se uivos: largos milhares de litros de álcool serão consumidos nestes 5 dias, e a festa apenas beneficia com isso.

23:00. Dirigimo-nos para a tenda da loucura.

Lá dentro estarão todos os outros rebeldes prontos a largar os vestígios de humanidade que ainda lhes restam e dançar como índios esquecidos por todos.

«Excessos!», dizem eles.

13:00. Ao acordar senti realmente que excessos tinham sido cometidos, mas que a ponta do iceberg ainda nem tinha aparecido.



E o que se seguiu foi uma mescla de encontros fulminantes, desafios irreais, confusões apaixonadas e amizades para toda a vida que são esquecidas no dia seguinte.

Mas não é isto que faz o ser humano feliz? Uma realidade onde tudo o que importa é o teu nome e a música que gostas.

O mar é de um azul bebe, a companhia sorridente e a bebida fresca. Existe realmente algo melhor?

E quando dás por ti, já é de noite outra vez. E já acordaste outra vez. E já foste às compras e jantaste.

Já conheces os vizinhos e já tens amigos em todo o lado: em menos de 48 horas desconhecidos tornaram-se na tua família.

5 dias passam como a água pelo teu corpo depois de saltares para dentro de uma piscina. E a lua desce para te fazer companhia na última noite.

A sensação é agridoce, mas sabes que esta é a derradeira oportunidade de mostrares a máscara que demoraste 5 dias a pintar.



«Um dia vais ser tu, e um homem como tu, como eu não fui.» Ornatos Violeta era a banda sonora improvável para esta altura, mas Deus escreve direito por linhas tortas. Talvez tenha um significado profundo, só que a leveza da tua alma é tanta que nem te atreves a ponderá-lo.

3:00. A realidade começa a pesar e abraçamo-nos, a agradecer uns aos outros por estes dias.

«Smells like Teen spirit!» gritou um desconhecido. E a voz de Kurt Cobain emergiu das colunas, dizendo tudo aquilo que as nossas almas queriam mas não conseguiam.

E as horas restantes voaram.

«Tenho as pernas a tremer...», conta Catarina Santos. «Tenho o corpo rebentado, o coração destroçado e a mente poluída. Se voltava a fazer o mesmo? Já amanhã!». O sentimento é geral e à medida que nos aproximamos dos autocarros o choro e, por vezes, os beijos são a maneira de transmitir as mensagens que o cérebro já não consegue processar.

A viagem chega ao fim e o paraíso fica para trás.

«Lembras-te da festa na praia no terceiro dia?» perguntou João Dias. «Dei um mortal e toda a gente aplaudiu!»

Lembro-me: lembro-me de tudo. E provavelmente todos os que lá estiveram se irão lembrar para o resto das suas vidas.

A realidade já não ajuda: o chão parece que te escapa por debaixo dos pés, e por muito que não queiras acreditar que acabou, não dá.

Os melhores dias tua vida já passaram.

Fica apenas a memória da felicidade e magia que aconteceu e mais ninguém viu.



20:00. Começa o telejornal. «Os excessos estão mais visíveis que nunca este ano nas viagens de finalistas,...»

«Excessos!» dizem eles.

Hoje posso concordar: mas porque lá estive. Eles? Eles não sabem nada.

Excessos? Sim.

Inesquecível? Sem dúvida.

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