O FARCUME terminou. Na última noite tivemos algumas entradas sólidas no festival, assim como várias surpresas nos vencedores.
Para conheceres os vencedores nas diferentes categorias (Videoclip, Animação, Documentário e Ficção), assim como os preferidos do teu próprio Buraco dirige-te ao seguinte coiso.
Cuidado, pois os resultados podem provocar sintomas estranhos na tua pessoa, variando entre espirros incontroláveis e hemorragias capilares. Ah, e risos também.
Gosto de redundâncias: lede o resto do artigo aqui.
A penúltima noite de FARCUME foi excelente. Era de esperar que devido à exuberante qualidade de algumas das curtas, outras delas parecessem deslocadas no panorama: mas o facto é que o nível se manteve constante durante as quase 3 horas e meia do festival.
Um dos grandes destaques vai para Entre Ange et Démon, do suíço Pascal Fomey. Em 9 minutos, a originalidade e inventividade foi aparecendo das mais diversas formas. Se os efeitos especiais, banda sonora e interpretações espelhavam o tom colorido da história, a cinematografia fazia crer que esta era uma rotina. Talvez um tipo de humor mais acutilante ou lampejos de poesia visual tornassem esta (muito boa) curta numa de nível excepcional.
O segundo dia do FARCUME trouxe vários tipos de humor consigo: uns, bem encapsulados no invólucro que o seu realizador tão afincadamente estudou, e outros numa salganhada ignóbil de dimensões bíblicas.
A noite começou (novamente) com uma das piores experiências do festival. Cova da Iria, do brasileiro Jacinto Moreno, foi uma tentativa, em tudo amadora, de contar a história dos pastorinhos de Fátima. Embora o carinho dos envolvidos estivesse patente em cada frame, a sua ignorância em relação aos processos que envolvem contar uma história em filme fizeram com que esta curta se transformasse numa piada de 9 minutos.
O FARCUME: Festival de Curtas-Metragens de Faro, que este ano vai na sua 4ª edição, é o festival de cinema de referência no Algarve. Dos dias 27 a 30 de agosto o público será presenteado com mais de 20 horas de cinema, divididas entre 3 espaços da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve.
Com um total de 2114 inscrições, o processo de selecção decretou que apenas 200 curtas, oriundas de 87 países diferentes, estarão em competição nas diferentes categorias: animação, documentário, ficção e videoclip.
A primeira noite de festival, beneficiando de um agradável espaço ao ar livre para as curtas de ficção, foi inundada por trabalhos de grande qualidade e outros de índole mais duvidosa.
Existem realizadores que aparecem e desaparecem. Existem outros que ao longo de um batalhão de anos vão-se afirmando enquanto super potências mundiais, levando legiões de fãs ao delírio pelo seu próximo filme. E também existem outros que quase ninguém liga...
Da nova geração (nascida nos 70's) que começa a domar o "bom conteúdo" de Hollywood destacam-se (para mim) Edgar Wright (Hot Fuzz e The World's End), P.T. Anderson (The Master, There Will Be Blood), Nicolas Winding Refn (Bronson e Drive) e o óbvio Christopher Nolan (Trilogia Batman e Inception).
(da esquerda para a direita: Quentin Tarantino, Chris Nolan, P.T. Anderson e Richard Linklater)
Sim, não são todos os que eu disse, mas o Google não tem tudo!!
Todos estes realizadores, de uma maneira ou de outra, têm sido reconhecidos pelo seu trabalho. Mas existe um gajo que anda para aí a trabalhar que quase ninguém conhece. Mesmo "supostos" amantes de cinema têm dificuldade em enunciar quais os seus filmes, quanto mais debatê-los.
Derek Cianfrance, ao contrário dos outros realizadores da sua geração, tem uma capacidade inata para combinar sentimentalismos REAIS, bandas-sonoras que despontam emoções REAIS, acção CREDÍVEL, interpretações e histórias que parecem VIVAS! Cianfance não cria mundos paralelos onde coisas extraordinárias acontecem, ele faz algo (a meu ver) muito mais difícil: ele torna pessoas normais em personagens extraordinárias.
Ele envolve e desenvolve de tal maneira os seus protagonistas que quando a sua jornada termina já mal os reconheces. E não se tratam de cicatrizes na cara ou um corte de cabelo diferente: tratam-se de mudanças reais na maneira como essa pessoa olha para o mundo.
E por conheceres a sua jornada, por teres estado com eles todo este tempo, tu próprio olhas de maneira diferente para o mundo. Não é afinal isso que se quer de um filme?
Ya, é fancy ter 200 milhões de dólares para gastar em cada produção, ou os talentos infinitos dos melhores atores do mundo nos quais te possas apoiar. Obviamente que estes recursos só dão bom resultado quando o realizador tem talento (o anti-exemplo do Michael Bay cai sempre bem...), no entanto é miraculoso falar de um realizador que na sua carreira INTEIRA ainda não teve acesso a mais do que 20 milhões de dólares e consegue produzir mais do que suficiente para subsistir de maneira artisticamente imaculada.
O futuro dirá se consegue manter esta veia de genialidade que poucas vezes temos o prazer de ver no cinema mainstream.
E tira duas horinhas do teu tempo e dá uma olhada a pelo menos um dos dois grandes filmes de Cianfrance: Blue Valentine e The Place Beyond the Pines. Vais ver que vale a pena. :)
O Espalha-Factos convida-vos, novamente,
a participar na aventura da Música na 7ª
Arte.
O objetivo é encontrar e debater momentos em que som e
imagem se mesclam perfeitamente. Uma demanda pela magia que está dispersa em
incontáveis cenas produzidas ao longo dos tempos está prestes a recomeçar!
Nas duas últimas ocasiões, as cenas tratadas eram
medianamente conhecidas por parte do público contemporâneo: mas hoje, a busca
será mais a fundo. Abrimos o antigo baú de memórias ancestrais e trataremos da
verdadeira joia da coroa do cinema britânico. Trata-se do intemporal Os
Sapatos Vermelhos de Michael
Powell e Emeric Pressburger.
Realizado em 1948, o filme conta a história de um bailado,
baseado na fábula homónima de Hans
Christian Andersen, e nos artistas que lhe dão vida: Victoria Page (Moira Shearer),
Julian Craster (Marius Goring) e Boris
Lermontov (Anton Walbrook).
Embora não tenha sido um êxito tremendo de bilheteira, agitou
suficientemente o mundo para arrecadar dois Oscares
nas categorias de melhor direção de arte e melhor banda sonora, influenciando
toda uma nova geração de realizadores.
Frequentemente citado por Martin Scorcese, Brian DePalma, entre outros, como um dos melhores
filmes de todos os tempos, este clássico revolucionou a maneira como a edição,
música, dança e até a cor eram utilizadas na 7ª arte.
E no cerne de toda esta magnificência está um bailado
hipnótico, onde a prestidigitação milagrosa da cinematografia, representação e
dança ribombam pelos quatro cantos do ecrã.
O público encheu a casa, e foi presenteado com magnificas interpretações e GRANDES ideias, na 2ª noite do Festival de Curtas de Teatro do Algarve. No entanto, Nu Palco e o seu “habitante” tiveram um lugar de destaque.
Eloquente sem soar presunçoso, jovial sem parecer inexperiente e com um à vontade de quem apenas se pode estar a sentir em casa, Miguel Ponte escreveu, encenou e interpretou esta pequena rábula sobre… Existem várias palavras que permitirão concluir esta última frase, no entanto a mais pertinente talvez seja “destino”.
“Destino”, nas várias acepções da palavra, permite uma avaliação mais cómoda desta peça. Permite destacar a jornada deste jovem a(u)tor, que, ao fim ao cabo, é apenas um ser humano como os que tem “na sua cabeça”.
Acabando com a “mítica” 4ª parede, o a(u)tor revelou a capacidade de tornar o banal em extraordinário e de fazer o público perceber o porquê de estar ali. Com um humor inteligente, nostalgia em doses saudáveis e metáforas apropriadamente fáceis de compreender, esta incursão sobre a mente de um amante do teatro é igualmente gratificante e instrutiva.
Omitir é feio, e tenho de confessar o pensamento que me ocorreu durante a peça: um Miguel Ponte já idoso, a mesma indumentária ao estilo Avô Cantigas, um currículo recheado de sucessos e um espectáculo de Nu Palco carregado de novas memórias.